Arquivos para a Categoria ‘Ensaios e Resenhas’

Faltava cerca de hora e meia para comemorarmos quarenta anos menos um da passagem do hino histórico de Zeca Afonso “Grândola Vila Morena” na rádio, em sinal de início de revolução, e já o Teatro Micaelense estava revolucionado. Na segunda sessão consecutiva de casa cheia, Adriana da Cunha Calcanhotto subiu ao palco e recebeu o caloroso aplauso de boas-vindas.

Monumento aos Açorianos

Monumento aos Açorianos

A aclamada cantora e compositora brasileira, também conhecida por Adriana Partimpim, falou da particularidade emocional de actuar nos Açores, principalmente devido às suas origens: Porto Alegre é a cidade-capital do estado de Rio Grande do Sul, fundada por casais açorianos no século XVIII, na sequência do Tratado de Madrid e por ordem do rei português: o “Largo dos Açorianos” ostenta o monumento onde se pode ler “jamais sonhariam aqueles casais açorianos, que da semente que lançavam ao solo nasceria o esplendor desta cidade”. Hoje em dia com quase um milhão e meio de habitantes, a metrópole fundiu-se novamente com as suas origens, desta feita através da música emblemática de Calcanhotto, que confessou ter finalmente percebido o porquê de os açorianos terem escolhido Porto Alegre para viver — “um lugar onde também faz quatro estações num dia”, disse ela.

Filha de um baterista de jazz e de uma bailarina, recebe um violão quando chega à meia dúzia de primaveras e deixa-se influenciar pela música popular brasileira. Enquanto cresce, actua em alguns bares da cidade-natal, no seu estilo inconfundível de “uma mulher e o seu violão”. Lançou “Enguiço” em 1990 e não mais parou, os discos de estúdio seguiram-se: “Senhas” (1992); “A Fábrica do Poema” (1994); “Maritmo” (1998); “Público” (2000); “Cantada” (2002); “Maré” (2008); e “O Micróbio do Samba” (2011). Nos álbuns infantis, iniciou-se com o badalado “Adriana Partimpim” (2004), vencedor do Grammy Latino 2006. Depois, “Partimpim Dois” (2009) e recentemente “Partimpim Tlês” (2012).

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

O encore trouxe “Fico Assim Sem Você”, depois da enormidade de êxitos que desfilaram entre a doce voz e os dedos teimosos no violão. É incrível como a simplicidade enche recintos! Outro dom que o povo brasileiro tem, além da sonoridade cadenciada do sotaque, é a partilha. Sim, devíamos aprender com eles. Muito banalmente trocam letras, melodias e composições, interpretam-se uns aos outros sem preconceitos.

Enfim, Adriana fica na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 3 de Maio de 2013
in Jornal Paper.li #MPB (Brasil), 3 de Maio de 2013

Fui questionado uma vez acerca da forma como anuncio as datas nos textos das crónicas: “mas, podias escrever a data, pura e simplesmente… para quê escrever ‘vinte dias e mais um’, quando ‘21’ diria o mesmo?” É uma questão pertinente, mas a resposta é simples: convida o leitor a exercitar a mente. Enquanto faz as contas para chegar ao veredicto, fomenta mais uma dúzia de sinapses e ligações neuronais. Vai lembrar-se dos pormenores com mais facilidade, senão vejamos….

Coração MúsicaEstávamos no nono mês do ano zero da década de oitenta, quando a freguesia de Ribeira Quente festejava o segundo dia após o vigésimo – digam lá se não vos aguça! Mesmo que não se recordem amanhã de manhãzinha, esse vigésimo segundo dia terá seguramente honras de feriado – no amanhã colectivo. Porquê? Simples: para homenagear um rapaz, que agora é homem, e que graúdo será certamente. Mas não um homem qualquer: um daqueles com um agá grande!

Em conversa com uma tertúlia de poetas da nossa praça, foi PENA termos chegado à conclusão de que o sucesso e reconhecimento artístico acontece – por inúmeras vezes – depois da partida do artista. Sou inequívoco advogado do oposto: se há mérito, tem de ser reconhecido, enquanto ainda há um reconhecido a reconhecer. Não é possível descrever o perfume de uma flor sem a farejarmos. Adiante.

Quantas vezes tem este tal homem marcado a diferença? Incontáveis. Será possível quantificar o seu contributo para a cultura das ilhas de bruma? Começa a ser difícil. Teve o pai como mentor no violão e Carlos Quental como professor nos corações. Juntou-se a Ricardo Melo e Ana Medeiros para fazer nascer Música Nostra e brotar Cantos da Terra; os mesmos cantos que percorreram quase todas as ilhas açóricas, Fnac’s do continente e Bruxelas! Levou o nome verde maduro dos Açores a Castro Verde, partilhando os palcos com Pedro Mestre da Viola Campaniça, José Barros da Viola Braguesa e Vítor Sardinha da Viola de Arame Madeirense. Não satisfeito, ainda experimentou a bravura de nos trazer Chico Lobo da Viola Brasileira! Ainda a procissão estava no adro, e esta criatura já juntava o tradicional com o electrónico: chamavam-lhe o Projecto Azorecombo, definido como um concerto de transmutações, onde partilhou as sonoridades com a dupla Miguel Carvalhais/Pedro Tudela e ainda Vítor Joaquim. As actuações sucedem-se, por exemplo, em aventuras museológicas por Vila Franca do Campo, ao lado dos grandes tocadores Dinis Raposo (uma vénia ao fadista!), e Carlos Estrela, a convite do grande e dinâmico antropólogo Professor Doutor Rui de Sousa Martins; e até por grutas carvoeiras, a sua mais recente dinâmica. Sim, a Gruta do Carvão é um espaço dinâmico, acusticamente falando e não só – parabéns pela iniciativa!

Rafael Carvalho

E eis que o pano se abre, e se descortina que o tema central de toda esta azáfama é a Viola da Terra. Alguns também a tratam por Viola de Arame, ou “aquela dos dois corações, o que parte e o que fica”, mesmo que se ponham frente a frente a micaelense e a terceirense. A sua alma já ganhou vida por lendários – e muitos vivos – literários, mestres da palavra que me recuso a imitar, declino a responsabilidade de enumerar os seus simbolismos, de falar da lágrima da saudade, do açor oculto, do cordão umbilical, das plantas, do trigo, do ás de oiros

Estamos aqui a celebrar os feitos, as Conversas à Viola, o enaltecimento da arte, nua e crua, e da passagem da palavra. Sim, porque Rafael Carvalho não tem apenas conseguido fazer. Rafael Carvalho é também um pregador, um missionário, um apóstolo! Divulga, difunde e ensina a Viola da Terra. Contribuiu largamente para evitar a extinção de uma tradição, que se adivinhava próxima. Quer seja pelo dinamismo empregue na Escola de Viola da Terra e Violão da Ribeira Quente, pela entrega conseguida junto à Escola de Viola da Terra do Grupo Folclórico da Fajã de Baixo, pelo exemplar desempenho no Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela comemoração do Dia da Viola da Terra, pela irrepreensível direcção musical da Orquestra de Violas da Terra, ou mesmo pelo empreendedorismo semeado na Associação de Juventude Viola da Terra.

Rafael Carvalho é dono do terceiro coração da Viola da Terra! Aqui fica o reconhecimento. Aqui fica um bem haja! Despeço-me ao som do seu registo “Origens”, que fica certamente na aurícula…. e na História da cultura açoriana!

in Jornal Terra Nostra, 08 de Fevereiro de 2013

Cantos de Dutra

Posted: 11 de Janeiro de 2013 in Ensaios e Resenhas
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E eis que somos presenteados com mais um ano, novinho em folha! Depois de cinquenta e duas semanas de labuta e total entrega – com trunfos e metas alcançadas em alguns casos, expectativas e sonhos defraudados noutros –, cá estamos com outras trezentas e sessenta e cinco oportunidades que nos são oferecidas, de bandeja. É com esse espírito de positividade que o Pavilhão Auricular saúda os seus leitores, e dirige um enorme agradecimento pelo interesse demonstrado em mais um ano de resenhas musicais: muito obrigado!

Raquel DutraTambém passível de ser consagrado numa bandeja – excluindo um bom prato culinário, que desperta os sentidos mais intrínsecos do ser –, é o mais recente trabalho da jovem micaelense Raquel Dutra. No trigésimo dia do undécimo mês de dois mil e doze, as portas vidradas do nosso sublime Teatro Micaelense escancararam-se para deixar passar os ares da música popular açoriana. A apresentação do trabalho “Cantos do Mar e da Terra”, que se previa decorrer inicialmente no Salão Nobre daquela casa emblemática, acabou por se transcrever para o palco principal, tal foi o ajuntamento ao nobre evento. Uma azáfama de povo excitado com o que iria advir inundou o átrio e foi presenteada com uma ainda maior roda-viva: folclore, cantado e dançado de forma distinta, declarada e regada com alegria e boa disposição. A efervescência dos aplausos migrou então para a sala principal, onde nos aguardavam uma guitarra clássica, uma viola da terra e um microfone para a artista intérprete, ermos em cima do palco.

“Teremos espectáculo com tão pouco?”, retumbavam alguns comentários arrojados. Não faziam a menor ideia do que dali viria, certamente. As luzes diminuíram lentamente a sua intensidade, no mesmo compasso em que o tom da conversa reduziu, como se o operador baixasse um fader de volume ao mesmo tempo que o da iluminação. Os músicos tomaram os seus lugares, e a entrada de Raquel Dutra – acompanhada pelo seu característico Bandolim – fez o público vibrar num caloroso aplauso. Depois de uma dúzia de entusiásticos acordes, uma pausa foi orquestrada para a apresentação de Teresa Tomé. Saudou o público com palavras sentidas, calmantes e verdadeiras; falou do projecto e da música açoriana com verdadeiro ardor e paixão.

A viagem que se seguiu foi de puro encantamento e magia. A Viola da Terra mostrou estar em perfeita sintonia com a destreza de Adílio Soares; os dedos do pai, Jorge Dutra, dançaram ritmados e certeiros pelo braço e pelas cordas da Guitarra Acústica; até Raquel conseguiu provar que é possível adicionar a esta amálgama – de si própria, muito rica –, mais um conjunto de cordas: as do Bandolim. E como se não bastasse, como se a magnificência deste trio de cordas não nos embalasse o suficiente, surge a voz. Como descrevê-la? Pela sua polidez, brandura e harmonia? Sim. Pela elegância, distinção e classe? Também. Mas talvez seja melhor o leitor ouvir com a sua própria aurícula para depois dizer se não concorda.

Numa panóplia sentida de música lírica açoriana, esta passa a ser uma obra de referência. Assim o é, não só pela qualidade impressa em todo o trabalho – desde o grafismo digno e incensurável de um maestro das artes desenhadoras, até à produção e edição impecáveis e imaculadas, passando pela execução primorosa dos músicos e da afinação de Raquel –, mas também pelo critério da escolha do repertório. Em vez de compilar temas sobejamente conhecidos da tradição açoriana – o que não faria mal a ninguém –, este projecto tem a ousadia e originalidade de dar corpo a músicas praticamente desconhecidas do quotidiano regional.

O disco presenteia-nos com doze faixas deliciosamente sine qua non do ponto de vista lírico, com origens nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial, Pico e São Jorge. Os arranjos são da autoria dos próprios, mas respeitam as particularidades de cada música, e até a história que a acompanha. Isto merece uma ovação de pé! É um sinal de que ainda há muito boa gente – boa gente, mesmo! – interessada nas nossas raízes. Um grande motivo para que…. a cançoneta fique na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Janeiro de 2013

Sonasfly WingsNum enorme regozijo de crescentes manifestações nas artes açorianas, não restam dúvidas – até para os mais cépticos – da galopante aparição de talentos, até agora ocultados pelas névoas das quase dez ilhas. No entanto, alguns sobressaem, brilham, evidenciam-se. Sílvia Torres é uma graciosa intérprete açórica que viu a luz do dia em 1981 e que arranhou o primeiro conjunto de seis cordas amarradas a um corpo de violão treze anos depois. O Grupo Folclórico do Porto Formoso acolheu-a com um impulso das lides tradicionais. Desde então, não tem parado.

Foi com um feeling de mistério que o Auditório Luís de Camões abriu portas no primeiro dia deste último mês. A perfeição acústica da sala recebeu espectadores suficientes para acalorar uma actuação que se previa mais concorrida, não fosse a excelência da organização da manager Cláudia Chaves Neves, e a expectativa criada em torno do projecto nos tempos precedentes: parabéns à promoção! Depois do convívio no exterior, atravessei o corredor e aproximei-me de um lugar sentado: satisfeito, apercebi-me da presença da rádio aliada do projecto, na pessoa do incansável Miguel Valério. São essas parcerias que eliminam os obstáculos do mar que separa os artistas!

Eis que baixam as luzes e o espectáculo é inaugurado: Vasco Pernes provou mais uma vez porque é considerado um perito da comunicação, ao recomendar com intermilhas toda a iniciativa. Os pés desnudos de Sonasfly tomaram conta do palanque e o público aplaudiu para o espectáculo que usurpou o nome ao disco: “O Outro Lado de Mim”. Não faltava absolutamente nada: a gravação vídeo para a posteridade por uma equipa de anfíbios, a captação áudio a cargo do calejado (faça-se uma vénia) Raúl Resendes, boa malta preparada para fazer ruído, e até a direcção musical – diga-se, excelentíssimo senhor produtor executivo! – orquestrada com os dedos vibrantes colados à viola-baixo dançante de Williams Maninho Nascimento.

Sonasfly AlignmentO alignment ficou muito bem posicionado – embora a ideia original de sentar os músicos em aconchegados divãs deixasse a audiência invejosa. Paulo Vicente fartou-se de nos brindar com os seus já reconhecidos e aprimorados dotes teclísticos, Paulo Rosa Martins mostrou-nos o que era a exactidão na percussão, Vasco Cabral trasladou os solos na guitarra eléctrica, e Dinis Geraldes fez o favor de ritmar os afoitos dedilhados na guitarra acústica. Como se não bastasse, irrompeu a meio do show, o saxofone feiticeiro de Michael Smith!

Sonasfly brindou o público – todos eles Talvez Ilhéus – com aquilo que eu considero uma feroz actuação, tal Carousel. A artista demonstra ter uma qualidade intrínseca, difícil de encontrar em tamanha dose: expressividade! A faculdade de conseguir exteriorizar, espelhado no rosto e corpo, o que cada palavra falada e cantada a faz sentir. Enfim, mostrou o Why de ser Guilty e que sabe ser uma Bitchy Girl quando é preciso Make it Through, independentemente de God lhe querer cantar uma Lullaby n’Um Segundo por Ti.

A fechar com chave de ouro, Bárbara Azevedo sentou-se em frente ao teclado e vez vibrar a sala com o som apaixonante do piano. Como se não bastasse, fez um dueto imprevisível com Sílvia Torres, no que eu agora considero ter sido sine qua non! Um apontamento bastante positivo vai para as duas back vocals escolhidas; além de Bárbara, a já conceituada Marina Pimentel brindou-nos com a doçura e segurança das suas cordas verbais.

O disco apresentado foi gravado em estúdio pelo audacioso Eduardo Botelho, emparelhado com os graciosos arranjos ilusionistas de Mário Jorge Raposo. Deram corpo às letras sentidas de Sílvia Torres e aos pré-arranjos de Tó Moreira. Este álbum tonifica-se com o single Carousel, cujo vídeo foi vencedor do prémio internacional da RightOutTV para o “Best Video DIY”. Está recheado de simbolismo e faz o favor de nos deixar a pensar. Life can be a carousel, diz ela. Tell me: are you ready?, estão prontos para comprar o cd?

(-) Já para o final do evento, a falha sonora do lado direito quase passou despercebida, embora corrigida com afinco. Apesar da exímia promoção do espectáculo de lançamento, é pena o auditório não ter abarrotado: esperava-se uma enchente e é preciso saber o porquê para afinar a organização do próximo concerto – sim, porque o público pediu encore.

(+) Como apologista de promoção, tenho que oferecer uma ovação de pé a Cláudia Neves, indubitavelmente uma revelação talentosa com prodígio suficiente para por de pé um concerto desta natureza. É preciso dispor de muita coragem, tempo e dinamismo para o fazer – sim, porque o dinamismo vale guita, a meu ver: e nada se faz sem ela. Parcerias inteligentes, contactos bem orquestrados, promoção bem na mouche e destreza de movimento! Parabéns, ficou na aurícula!

 

in Jornal Terra Nostra, 14 de Dezembro de 2012

Um Código para decifrar

Posted: 9 de Novembro de 2012 in Ensaios e Resenhas
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Sou indubitavelmente suspeito, por motivos diversos e incontáveis, mas há projectos que temos mesmo que apregoar. Por mérito próprio! Os critérios de selecção são normalmente simples: basta terem um pé nos Açores – mesmo que o outro estacione noutro lugarejo qualquer. Seria suficiente para mim que a qualidade pautasse as condutas musicais do colectivo, ou mesmo que a aurícula retivesse as frequências emitidas pelos instrumentos musicais deles. Posso até acrescentar que me daria por satisfeito se alguma harmonia e consistência fosse suficientemente generalizada num artista ou grupo! Pois é, mas…. esperem! E se num só embrulho me fossem entregues todos estes predicados? E se uma mescla de músicos criativos e melodiosamente inteligentes me fossem apresentados e assim anunciados à saída do cinema? Simplesmente não acreditaria. Teria que ver para crer ou, no nosso caso – ouvintes e consumidores de notas musicais –, “ouvir para crer”! Assim o fiz: naveguei esperançado na “Hope Song” e não me arrependi. Vamos então começar a decifrar o código dos “THE CODE”  (sim, porque isto ainda agora começou!).

Félix Medeiros, guitarrista já conhecido das nossas lides regionais – e que se prepara para “pular a cerca” com a sua formação musical, – surge com uma execução de ritmo em guitarra acústica irrepreensível. Normalmente é preciso avisar “take it easy, play gently!”, mas ele já tem a lição estudada. Como se isso não bastasse, enclausura-se também na guitarra eléctrica e faz tremer as cordas com veemência e fervor. Demonstra impavidez e uma evolução bastante significativa, não só em termos de execução como de maturidade. Além disso, relança a sua índole inconfundível de compositor.

Agora passa a ser preciso fazer continência a João Bettencourt. Já estávamos habituados à sua fluidez nas baquetas, à sua paixão areada nas peles da bateria, mas desta vez acrescentou uma qualidade: rigor na execução. Exímio!

Grafismo da autoria do designer Miguel Maia.

André Ferreira confessa que o estúdio foi uma experiência nova, mas essa sensatez e cuidado transpareceram para a viola-baixo que ele tanto abraçou. Está na senda certa!

As oitenta e oito teclas brancas e pretas do piano olharam para cima com êxtase: era Hugo Medeiros que se preparava para lhes deitar as mãos, literalmente. As falanges delicadas e cuidadosas do pianista fizeram ecoar a acusticidade de um piano que surge muito bem enquadrado.

Da mesma forma que se deixa a cereja do bolo para a última garfada – e eu até nem gosto de cerejas, mas a frase fica bem aqui –, deixei para o final a rapariga que conheci de olhos vendados na capa de um livro de ficção que anda por aí. De olhos tapados andávamos todos, e por tempo demasiado. Então porque foi a Marisa Oliveira ocultar um talento tão evidente com tanta procrastinação? Por onde andou esta piquena? O grasp inquietante da sua voz andou escondido. O feel energético e potente das intérpretes gospel foi muito bem revelado na “Hope Song”! Mas ainda a vejo – ou melhor, oiço – num registo que evidencie mais essas características do seu instrumento musical: um estilo que não deixe de destacar as notas altas, mas que enfatize os seus graves enriquecidos com aquele vibrato inquietante!

Félix Medeiros e Marisa Oliveira

E vós perguntais: mas onde vês – ou ouves – isso tudo, quando a moça apenas cantou uma cançoneta? E a vossemecês mesmos eu respondo: já vi e ouvi isso algures, talvez num futuro aproximado, talvez em delírios, maybe in a place, far, far away! Mentira, porque isto vai acontecer aqui mesmo, debaixo dos nossos narizes. Porque os “The Code” são um projecto regional, mas não foram concebidos “à regional”!

Uma das muitas provas disso mesmo é a imagem que passa cá para fora. Se algum senso comum for dirigido ao design empregue na imagem deste projecto, a conclusão a que se chega é que não estão a brincar em serviço. Miguel Maia demonstra que tem o toque especial que é fulcral para se destacar dos demais. Sorrateiramente, este designer - que também é brother in arms - vai deixando marcas relevantes no panorama editorial e de imagem de marca do nosso mercado e além-fronteiras. Quando derem por si, estarão rodeados da sua simbologia mágica, cativante e original: um profissional a seguir com muita atenção!

Bom, mas toca a trabalhar, rapazes (e rapariga)! E não se esqueçam de continuar a divulgar. Promoção, promoção – só depois vem a emoção! E o mais importante? A canção ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 9 de Novembro de 2012

São sete e dez, Post Meridian. Ao subir as escadas do Underground, a sensação de ver surgir a fachada do Dominion Theatre é de se lhe tirar o chapéu. Do lado oposto da Tottenham Court Road, nem mesmo a azáfama do trânsito, nem sequer a altura dos red buses de dois andares retiram a grandeza do vulto dourado de Freddie Mercury, na sua pose enigmática.

Um funcionário do teatro passeia-se no exterior com um pequeno cartaz, apregoando descontos nos últimos bilhetes da sessão, provavelmente resultantes de alguma desistência. “Last tickets, discounts!”, anuncia ele. Os responsáveis pelas portas olham o relógio, conferindo que falta um quarto de hora para o começo do espectáculo, e abrem alas de pontualidade britânica. Um cardume de espectadores ávidos pelas teatralidades musicais londrinas irrompe pelo átrio alcatifado. “Welcome!”, recebem as simpáticas meninas das vendas de merchandising. Agitam no ar os CD’s, os panfletos, as t-shirts – estão por todo o lado, promovendo mais um dos negócios paralelos à bilheteira.

Esta é uma máquina que se gere a si própria. Quem chega sem qualquer introdução até pode julgar que se trata de uma estreia ou novidade. Mas esta terça-feira de Setembro com casa cheia é só mais uma lotação esgotada, igual às que se têm repetido nos últimos dez anos. Sim, este espectáculo está a rodar há mais de uma década! A equipa de Ben Elton comemorou recentemente as quatro mil actuações, com a edição de um disco com os temas do musical que dão nova vida aos Queen. Desse álbum, a versão de “Bohemian Rhapsody” já atingiu o primeiro lugar votado para o single favorito no Reino Unido, e o espectáculo propriamente dito arrecadou o prémio Olivier Awards 2011, da BBC2 Radio.

E o pano sobe. A sala enche-se com os aplausos do público de etnias variadas, desconhecendo-se quem se senta nos camarotes. É bem provável que se encontre alguém socialmente relevante – o que quer que isso queira dizer –, ali já se sentaram músicos, artistas, políticos e realeza de todo o planeta. Todos aguardam pela produção galardoada, desde com o “Best New Musical” dos Theatregoers’ Choice Awards, até ao “Outstanding Production of a Musical” dos canadianos Dora Awards, passando pelo “Best Live Performance of the Year” dos Capital Gold Radio Legends Awards. E o que acontece? Temos música!

O musical tem a direcção de Ben Elton, a supervisão musical de Brian May e Roger Taylor, e conta com a coreografia de Arlene Phillips. O português Ricardo Afonso também já representou o personagem principal. Apresenta vinte e quatro temas dos que representam os – ainda –    êxitos dos Queen, e conta-nos a história de um jovem que lidera um grupo de pessoas na busca pela alma do Rock num futuro imaginário em que a música electrónica e industrializada assumiu a única oferta no mercado. Apesar de parecer um pouco arrojado em termos de linha temporal, a forma como o tema está abordado não deixa de ser interessante, quando este tipo de massificação já se mostra perante os nossos olhos.

Esta produção vai voltar a sair das terras de Sua Majestade. Mesmo depois de passarem a ter as suas próprias escolas, de saltarem para o mundo virtual através das aplicações para iPhone e iPad, de terem obtido sete milhões de espectadores na Grã-Bretanha e outros quinze milhões pelo mundo fora, já estão confirmadas actuações fora de fronteiras numa tour que irá passear-se no ano de 2013. O arranque desta tournée por arenas do mundo irá acontecer no próximo mês de Março, na Nottingham Capital FM Arena.

Por maior que seja a tentação de esmiuçar o conteúdo do espectáculo, deixo o repto a quem deseje descortiná-lo, pois acredito que estará pelos palcos do mundo por muito mais tempo. Sublinho a mensagem das entrelinhas do texto, que lembra como os grandes nomes levam vidas curtas, subjugados à pressão da sociedade, e deixando de fazer parte do nosso mundo num ápice. Um arrepio atravessou-me o pensamento quando, no meio da história, imortalizam nomes como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain e, claro está, Freddie Mercury. No entanto, ele próprio indagava: “Who Wants to Live Forever”?

Sem dúvida, um musical que me ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 19 de Outubro de 2012

A Convocação do Inferno

Posted: 4 de Abril de 2012 in Ensaios e Resenhas
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“Summoned Hell”: o nome sonante deixa qualquer saboreador de metal com a curiosidade espicaçada, deixando no ar uma sensação de clichê. Não o cliché proveniente do francês, insinuante de “repetição”, mas o que se relaciona com o metal propriamente dito. O meu gosto neste género musical é muito afunilado, talvez até demasiado exigente. Nem tudo me apraz, e nem sempre consigo colocar por vocábulos os motivos pelos quais…

Os sete elementos originais conotaram-se no estilo de Melodic Black Metal, no primordial mês de Junho de 2004. Alguns ajustes e normais mudanças no line-up no período que antecedeu 2008, mudou esse label para Melodic Death Metal. O álbum que desejo partilhar convosco é o culminar desse primeiro trilho, tendo os trabalhos sido iniciados em 2010. “Prison of Madness” é uma prisão de loucura que nos apreende os sentidos – e a pena é prolongada!

E eis que o pano abre…. A candeia que alumeia na frente é “Heart of Dust”, e dá início às hostilidades. O coração de poeira transporta-nos impecavelmente para o oriente nos seus primeiros instantes. Ovação de pé para Stephan Kobiakin: os solos de teclado são sobrenaturais, perfeitos. Este músico tem já um grande percurso, mas adivinho um ainda maior pela frente! Também neste tema, embora também no restante disco, difícil é não nos apercebermos da duração dos screams de Hugo Almeida; fácil é perdermos o fôlego logo a seguir. A execução é exemplar, temos aqui um vocalista a respeitar!

 

As mentes doentias de “Sick Minds” abrem caminho com excelente trabalho de Pedro Costa nos timbales, e a “In Sorrow” transborda arrependimento, enquanto a “Dead Men Song” diz-nos o que se ouve, vindo do inferno. Poder-se-ia definir “Storms of Insanity” como uma genuína libertação da loucura, de uma forma suave e melódica – se é que se pode efectivamente definir. Os licks de guitarra são deliciosos!

“Summoned Hell”, o tema com o mesmo nome do projecto, projecta-nos numa dimensão alucinante, que me fez ouvir os primeiros quarenta e cinco segundos repetidas vezes até conseguir encaixar a espectacularidade da sonoridade abrasadora!!! Um autêntico inferno melodioso! Aos 3:21 descobri um autêntico manjar para stereo addicts, garanto que vale a pena ouvir várias vezes!!! Aos 4:01, recebemos uma sugestão muito educativa, embora pouco religiosa, e entramos numa roda viva de bateria e baixo. Muito simples, mas que nos abre caminho para uma crescente série de pequenos orgasmos harmónicos até ao final da música.

Na faixa número sete, “Farewell” sorve uma bateria bem “torneada”. Suspiros desconcertantes. Estonteantes cinco minutos e meio; mais uma vez falam em dívidas por pagar. Embora se tratem de outro tipo de dívidas, o pre-chorus está muito bem escrito: “and though sometimes a bound can brake, a new strong one forms and awakes, for your crimes you’ll pay so there you stand, bring the coins, pay the dead and meet me on the dammned land.” Mas ainda assim acreditam, no refrão: ”I believe in your soul, but it’s doomed to paradise”. Depois temos a clássica melodia “dos cisnes”, seguida de uma vertiginosa odisseia de solos e execuções mestrias, principalmente dos teclados, num ritmo que nos transmite vontade de saltar – e mais que isso, até! Um êxtase de ritmo, power e harmonia! Em seguida, “Dammed Place” representa uma das mensagens mais fortes deste álbum. Amaldiçoa os “falsos deuses” da sociedade moderna, “aqueles em que votamos e escolhemos para ditar as regras que depois nos corrompem”.

Os alucinantes 7 minutos iniciais de “Symphonic”, desvendam teclados incrivelmente rápidos e sincronizados com os solos de guitarra e com a “marcação cerrada” da viola baixo de Paulo Arruda. Outro tema que invoca vocábulos fortes, seguidores do “canto da sereia”, “reis” poderosos, falsos profetas e promessas, anarquia, escassez… Surpresa aos 2:20: uma dança hipnótica de ballet!, seguida por licks de guitarra reveladores. E quando pensávamos que o tema não tinha nada mais de novo para trazer, outro solo de guitarra nos espanta até ao fim. Já “Sin of Lies” é um discurso directo para alguém que abusa da mentira e do pecado: uma forma de fechar o trabalho com chave de ouro.

(+) A formação de Hugo Almeida (guitarras e voz), Ruben Ferreira (guitarra), Pedro Costa (bateria), Paulo Arruda (viola baixo) e Stephan Kobiakin (teclas), parece bem equilibrada e com muito para oferecer. O poder das letras enriquece o trabalho e aumenta o interesse do ouvinte que se identifique com os temas.

(-) Depois da obra gravada, há 3 coisas em que é necessário apostar: promoção, promoção e… promoção! Estes estilos musicais dentro das várias vertentes do metal que as nossas ilhas produzem precisam chegar além fronteiras, mas depois, quando isso acontece, ainda carecemos de feedback na origem! Caso isso se contrariasse, talvez se conseguisse levar a nossa música AINDA mais longe! – sim, porque temos qualidade para isso; passem palavra, que a música açoriana agradece!

Mas efectivamente sim, as cantiguinhas ficaram-me na aurícula!

 

Site Oficial: http://summonedhell.com.sapo.pt/
MySpace: http://www.myspace.com/summonedhell
YouTube: http://www.youtube.com/summonedhell
Facebook: http://www.facebook.com/Summonedhell

Zeca Medeiros

Então, o que terá a minha Guitarra Portuguesa em comum com Rui Veloso? O Fado Insulano…. E o que têm os quatro minutos e meio do Fado Insulano em paralelo com um pouco de Rui Veloso? O grande Zeca Medeiros. E a dita guitarra, o que tem a ver com tudo isto? Esteve nas mãos – e nos dedos – do mágico Eduardo Botelho.

Sim, amo a sonância de uma Guitarra Portuguesa, e atirei-me completamente de cabeça quando a vi. Foi amor ao primeiro acorde! Não sou suficientemente digno de a ostentar, e não tanto expedito para a tocar como aprovaria. Fico-me por alguns solfejos tímidos de quem se fica também pela meia dúzia das ditas normais cordas de uma guitarra. Mas não deixo de palpitar com o seu timbre, por isso abracei-me…. à Guitarra Portuguesa. Mas ela agora é especial. É o meu elo à grande música, um marco à mestiçagem perfeita de alguns dos meus ídolos.

E eis que sobe o pano. Paulo Borges enceta com uma simples mas sentida melodia nas oitenta e oito teclas do piano, e mantém-se exemplar, criativo e sentido até ao culminar. Unissonante, entra no palco desta curta-metragem musical, o vertiginoso Jon Luz e a sua viola acústica. Apresenta-nos também o seu criteriosamente tocado cavaquinho, que nos embala numa cadência vacilante.

Mais um pano se abre, agora para a profunda voz insulana do meu estimado José Medeiros, mais célebre por Zeca no seu vasto – e amplo – universo das artes. E aqui está o maior desafio que se me podem colocar: articular por vocábulos a unicidade da sua voz. Mas aceito o repto – com orgulho! Essa voz é…. inenarrável, inexplicável e indescritível! Pronto, e com três adjectivos unívocos, safo-me. Assim, não preciso de explicar como a dicção espectaculosa se alia à sensação e à narração gravemente pulsante; nem como a rouquidão ressaltada nos agudiza, tal conto de fadas acerca dos nossos fados. Melhor descrição, só mesmo o que o próprio escreveu nesta cantiga: ”nas vozes de veludo que a noite insinua, vem rasgar, doce falua, meu amargo cancioneiro”. Veludo? Do mais inacessível e raro. Na escrituração e composição maestrina desta obra de arte. Amargo? Talvez no pesar das palavras. Mas se nos tocam, também o somos.

Rui Veloso

Temos “estrelas no céu”, ao contrário do que muitos possam dizer. É o inigualável Rui, que de Veloso também o encantam. E o homem que dispensa apresentações, diz que o “meu canto ainda ecoa no cais das descobertas”, e sabemos bem que ele vai bradar muito para além do Porto Côvo. Ainda mais quando proclama que “só meu fado ainda perdura”. Já é eterno. Mas as surpresas por aqui não se deixam ficar.

O meu camarada Eduardo Botelho colocou toda a sua destreza no braço de lenho que guia o rumo dos doze fios reluzentes da minha estimada guitarra portuguesa, e transportou-nos no tempo, para uma mistura das nossas raízes com a contemporaneidade. Faz-nos arrepiar. Se ele já é um homem dos sete ofícios, também é o homem das sete guitarras.

E com “Fados, Fantasmas e Folias” vos deixo. Deixem-se enfeitiçar com esta gravação que ligou Vale de Lobos a Ponta Delgada. Enamorem-se com o “compasso de lonjura”, nos sobressaltos de viagens em “canoa baleeira”, em esteiras “que querem beijar o Tejo”, e deixem-se ficar prisioneiros.

Eu fiquei. E a cantiga ficou na aurícula!

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in Jornal Terra Nostra, 14 de Setembro de 2012

A aura de Aurea

Posted: 1 de Novembro de 2011 in Ensaios e Resenhas
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Coliseu Micaelense preparado para o espectáculo.

Aos vinte dias, somados a mais oito, do climático inconstante mês de outubro de dois mil e onze, os Açores receberam a diva portuguesa, de seu nome verdadeiro Aurea! O palco foi a casa de espectáculos mais emblemática das ilhas, o Coliseu Micaelense. Quando foi inaugurado – em 1917 -, o então chamado “Coliseu Avenida” não imaginava que as suas paredes viessem um dia a vibrar da forma que o fizeram naquela noite. Uma casa repleta de fãs da recente voz de sucesso, mas também de muitos curiosos que passaram a admiradores após o espectáculo de se lhe tirar o chapéu!

Aurea - O sorriso carismático

Então, e se me perguntassem o que tem Santiago do Cacém e a ilha de São Miguel em comum? Responderia que absolutamente nada, à excepção de alguma doçaria conventual ou ambas terem um clube de futebol com “união” no nome (União Sport Club versus Clube União Micaelense). Mas a união a que me quero referir é outra; é que São Miguel adoptou uma filha legítima de Santiago do Cacém. A partir de agora, Aurea também é nossa!

Mas afinal quem é esta piquena que trouxe para as ilhas uma mescla de soul com alma, pop bem popular, e blues em tons de cerúleo? Não, Aurea não vestiu azul: começou o concerto com um adorável traje naqueles tons de rosa dos vestidos das bonecas de brincar, das barbies! Podia perfeitamente ser a barbie portuguesa – e açoriana, também – mas numa versão muito mais energética e pujante! Bem, esta piquena, já eleita como “Golden Voice” portuguesa, é uma senhora da sua própria voz, uma dirigente na 5ª arte, um exemplo de seriedade, humildade, profissionalismo e boa disposição. Não se deixem enganar pelos seus pés descalços em cima do estrado, há muito que se diz que assim se está mais ligado ao palco.

Capa do álbum homónimo

Cresceu rodeada por família e amigos ligados à música. Ainda numa idade viçosa, Aurea desejava o teatro. Entrou para a Universidade de Évora à procura desse canudo. Mas mudou de ideias. E fez muito bem. Acertou em cheio neste seu primeiro projecto musical. Falemos dos feitos da artista, até agora. Pode ser que se impressionem. O álbum, com o mesmo nome da artista, foi lançado em setembro de dois mil e dez. Esteve mais de trinta semanas consecutivas no Top Nacional, quase sempre nos cinco cimeiros lugares, e uma meras oito semanas ininterruptas a liderar. Sim, em primeiro lugar! E já é Disco de Platina! Não chega? E que tal o “Globo de Ouro” na categoria de “Melhor Intérprete Individual”? E ser a primeira artista com três nomeações nessa gala? Sim, três nomeações! E o prémio para “Best portuguese act” da MTV Portugal, e consequentemente nomeada para o “Worldwide Act European Nominees” dos “MTV Europe Music Awards“? Enfim, passar pelos Ídolos aos quinze anos foi prematuro, mas a persistência e o sonho valem tudo, principalmente quando se tem tudo para vencer! Tenho a certeza que Aurea não ficará por aqui.

O álbum, já o tinha ouvido. Passei-o algumas vezes nos meus headphones, e descortinei logo uma tendência para o emblemático, até indícios de uma ícone em florescimento na nossa música. Mas como normalmente saio desiludido de espectáculos ao vivo de artistas com álbuns muito bem gravados, caminhei pela Rua de Lisboa bastante céptico.

Mas eis que o pano sobe! (já perceberam que aprecio esta locução…) Mas no caso do coliseu: eis que o pano abre – para os lados! Vou encetar por dar os parabéns, felicitações, congratulações, parabenizações – e outras derivações –, a Miguel Casais. Que show, que emoção, que som, que rendição! As ritmadas cajadadas das baquetas no drum set eram contagiantes, aliciantes, deleitosas e apaixonadas, mas milimetricamente alinhadas. Nota positiva para a comoção conquistada na ligação entre o uso da tarola e do timbalão – sensações fortes. E a combinação do som do bombo com a viola-baixo de Guilha Marinho? Bem, onde estava um, estava o outro; onde um não ia, o outro cobria. Simplesmente genial. Muito ritmo, power e médios-graves inteligentemente preenchidos.

Foto: André Frias - contratempo.com

Acima de tudo, um sincronismo invejável entre todos os musicistas. As back vocals Tânia Tavares & Patrícia Silveira são autênticas divindades da voz! Ricardo Ferreira com uma execução de impecabilidade na guitarra, e Elton Ribeiro mostrou primazia e sentimento nos teclados. Grandes músicos! Uma nota muito positiva para o stage crew: mostraram a rapidez, eficiência e profissionalismo que qualquer músico desejaria ter por trás de si – literalmente. Uma outra observação categoricamente elogiante vai para o som conseguido nessa noite, para um recinto difícil e suis generis como é o Coliseu Micaelense, com diferenças de reverberação anormais entre a sala vazia e cheia. E não deixo estes elogios para o fim, propositadamente. Dou todo o mérito e valor: um espectáculo destes não se faria sem eles!

Tema após tema, o dedo graúdo do meu pé direito ficava cada vez mais desassossegado, e as ancas do público ganharam vida própria. Começara o pé de dança – ou a anca de dança! Já se conseguiu apreciar o espectáculo decentemente depois de perceber a lógica da coreografia dos dois carismáticos elementos nos metais: Elmano Coelho no saxofone e Miguel Gonçalves no trompete. É que ambos sincronizam um bailado tão viciante, que quase nos fazem esquecer o entusiasmante sopro dos seus instrumentos, e até mesmo as formas do vestido de Aurea…

Foto: André Frias - contratempo.com

Já zurrava uma voz de entre a multidão: “Aurea, estou apaixonado por ti!”, mas logo surgiu a resposta da cantora: “No, no, no, no! I don’t want to fall in love with you!” Aurea acusou de termos saudades das “The Main Things About Me”, num ritmo alucinante. Também disse “I’m turning my back on you” em “Don’t Ya Say It”; e ainda “I don’t want you, i don’t need you, i don’t love you anymore!” – embora suspirasse carinhosamente de vez em quando –, em “Tower of Strenghth”. Como se isso não bastasse ainda pediu “please lie to me for just one day”, mas redimiu-se dizendo numa voz meiga “I would cook you some breakfast”, no delicioso tema “Dreaming Alive”.

Aurea - Simplicidade e jovialidade

Mas nem tudo foi “doloroso” ouvir desta voz que apaixona. Acabou por nos fazer sorrir ao admitir “I’m wishing for you”, ao compasso clássico de “Waiting, Waiting (For You)”. Claro que ficamos mais contentes! “Busy (for me)” arrebatou a audiência: o tema não precisa de apresentações. Não existe nada mais gracioso para um intérprete, músico ou autor, do que sentir outras vozes em uníssono a cantar ainda mais alto o que nós cantamos. “So I cry, cry, cry, cry…” Muito chorou aquele auditório. Momentos mais íntimos foram partilhados com a excelência das guitarras acústicas em “Be My Baby” e “Heading Back Home”.

Mas quando o público – já satisfeito – pensava que a voz de ouro tinha mostrado todos os seus dotes, Aurea regressou em grande para o encore. Após o interregno da praxe, enroupava a esperança na cor da alface madura. Presenteou-nos com a magia de “The Witch Song”. Num tema maravilhosamente hollywoodesco, Aurea mostra o seu lado teatral e as suas várias personalidades extravagantes. Passa por cantarolar que é um género de feiticeira com gostos refinados, e que nenhum homem a consegue conquistar. Por isso mesmo, entoa exaltada “leave me alone!”. Depois, ameaça vigorosamente: “there is not much you can do to run away, I will turn your life into a hell”. Até nos seduz pela simpatia cínica, entoando “you hold my hand while all the birds fly”. A esplêndida interpretação de Aurea neste papel desvenda a versatilidade e o carácter, não só da sua voz, mas também dela própria. Magnificente!

 

(-) Como ponto negativo, teria que apontar a curta duração do espectáculo. Perfeitamente compreensível, partindo do princípio que é uma primeira tour e que não se deseja introduzir temas alheios ao álbum que se está a promover. Numa próxima digressão em que se promova um segundo álbum, estou certo que a equipa vai planear um espectáculo ainda mais mediático. Por outro lado, quantidade não é sinónimo de qualidade. O espectáculo não tem quebras significativas que desliguem a atenção do público.

(+) Essencial numa récita deste género é manter o público a participar, e Aurea tem esse dom. Conseguiu fazer com que os micaelenses – por mais de uma hora – esquecessem que são um público superficialmente reservado. O espectáculo está muito bem orquestrado. Recheado de surpresas agradáveis que prendem o povo à actuação, como a paragem em que os músicos petrificam por uns minutos: quebra a sequência e arrebita a curiosidade. Para qualquer lugar do palco para onde se olhasse, havia movimento e provas mais que suficientes de que os artistas estavam a desfrutar bastante do que faziam. As palavras de Aurea demonstram a humildade de uma grande artista. “Este é o nosso primeiro coliseu!”, expressou ela – mostrou comoção!

Mais importante ainda: as cantigas ficaram na “AUREAcula”!

 

Para mais informações acerca da artista, visite:
Site Oficial: http://www.aurea.com.pt
Facebook: http://www.facebook.com/aureaoficial
MySpace: http://www.myspace.com/aureaoficial
YouTube: http://www.youtube.com/user/blimrecords
Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aurea_(cantora)
iTunes Store: http://itunes.apple.com/pt/album/busy-for-me-single/id375729228
Editora: http://www.blimrecords.com
Agenciamento: booking@blimrecords.com

Capa do "Fragmentos"

O décimo mês do ano de 2011 teve um primeiro dia histórico. O projecto de renome “CONNECTION” lançou um trabalho discográfico: “FRAGMENTOS” é o nome escolhido para uma colecção de sensações e vibrações reunida numa esbranquiçada bolacha de cd. Desde os temas de “REBIRTH” – que tanto me aguçaram o apetite, em 2008 – que se esperavam novidades da dupla indissolúvel; e cá estão elas! O álbum promete malhar nas rádios; está recheado de brindes, surpresas, desproporções saudáveis, valências emotivas, palavras tocantes e músicos magos na sua arte. Enfim… reune todos os ingredientes para um prato verdadeiramente principal, a servir com os 5 sentidos bem abertos, mas com a audição completamente escancarada!

1. E eis que o pano sobe… Ouvem-se aplausos; e também as primeiras sensações que “CLUE” – o primeiro tema – nos presenteia. Indubitavelmente que Mário George Cabral e Sílvio Ferreira não mostram reasons to be ashamed, antes pelo contrário. Conseguimos perceber a elegância da música electrónica e, mesmo assim, sentir a batida da bateria acústica de João Freitas. O frenesim do wah-wah das guitarras de Tiago Franco e a sumptuosidade dos solos da viola-baixo de Zica hipnotizam-nos e colocam-nos nos ombros da opulência.

Mário George Cabral ao piano.

2. Acto contínuo, entramos num paraíso privado. A feitiçaria das guitarras de Luís Tavares Sousa, Tiago Franco e de Eduardo Botelho fazem-nos viajar num tapete voador. Luís H. Bettencourt escreveu as palavras de “PRIVATE PARADISE” que, unidas à força das melodias dos refrões bem conseguidas, nos deixam down to our hands and knees. E já que falamos em posições constrangedoras, não podem deixar de gozar das sensações lascivas que o minuto 2:45 nos oferece… Recomendo.

3. Se já se ouviam louvores no início do álbum, agora há direito a uma ovação de pé: “SERES O MEU AMOR” é algo mágico, viciante, causa mesmo dependência. Não pelo amor propriamente dito, primorosamente espalhado pelos versos de Aníbal Raposo, como sevaga sobre a vaga se tratasse – e que bom seria saber a cor do perfume –, mas pela amálgama jovial e quase ilusionista da combinação da sua própria voz com a de Sílvio. Outra excelente combinação: os solos patriotas de Eduardo Botelho na guitarra portuguesa seguidos do seu slide gracioso na guitarra eléctrica.

4. Hélder Machado dá as primeiras bordoadas certeiras na bateria – como na maior parte dos temas deste disco –, e abre caminho para a voz irreal e prodigiosa de Vânia Câmara, em “AS YOUR SOUL TOO”. Uma nota muito positiva a favor desta intérprete, não que ela precise (já tem provas mais que dadas!), mas para os mais distraídos do nosso panorama. Tema deliciosamente escolhido para uma voz cheia de soul!

Sílvio Ferreira

5. “VARANDAS DE S. JORGE” assenta num concentrado poema de Sidónio Bettencourt. A voz apaixonadamente entorpecedora de São Pontes não precisa de apresentações, e tem aqui mais uma prova da sua singularidade. A inconformidade e a veemência das guitarras de Paulo Bettencourt deixam-nos suspensos. Ao contrário da maioria dos temas deste trabalho, em que António Feijó está muito bem extasiado na viola-baixo, neste tema podemos ouvi-lo no contra-baixo.

6. Temos ritmo, temos paixão e energia… Estamos vivos! “ALIVE” arranca com o furor do didgeridoo de Paulo Simão, seguido das energéticas incitações de move around & dance tonight de Paulo Melo.

7. A sentida voz de Sílvio quer poder voar e dançar perdidamente em “QUERO”. Luís H. Bettencourt dá o elegante e distinto mote na guitarra eléctrica que serve de base para o aprimorado poema de António Melo Sousa. Combinação perfeita de sons de orquestra com a electrónica dos sons de Mário George.

Hélder Machado

8. “RATHER BE IN LOVE” esconde mais uma apetitosa letra de António Melo Sousa. Eduardo Botelho dá o seu contributo na guitarra eléctrica; os seus solos de assinatura não passam inobservados: enchem o tema de alma e virtude. Destaque para os arranjos exemplares de outro masterpiece da nossa música: Mário Jorge Raposo. Parece-me que os Super-Mário’s da nossa terra nasceram para nos surpreender – na prática, eles já não nos surpreendem; só nos surpreenderiam se nos deixassem de surpreender! Fui claro?

9. O chill-out de “ALMA BREVE” merece um louvor duplo. António Melo Sousa mostra-nos o seu lado de silêncios, tanto na escrita do poema como na sua oração penetrante. Deixa-nos “desflorar o terreno fértil dos seus próprios sentidos, reinventa as notas da pauta inacabada de uma balada onde se revê. Frágil, mas inteiro.” Encontrar trevos com 4 folhas nas trevas é exactamente o que fazemos quando encontramos este tema. Uma outra óptima sensação é o stereo conseguido no xilofone.

 

(-) Tentei esmiuçar o trabalho para poder apontar pontos negativos, algo que primo em fazer em todos os meus juízos de valor, mas apenas consigo destacar a enorme necessidade que este disco tinha de ser promovido por uma major label. Este trabalho precisa de ser ouvido no mundo inteiro.

(+) Muitos pontos positivos do trabalho já foram avivados, e passam pela aposta certeira em vários temas na nossa língua, além da inteligência emocional de Mário George Cabral nos arranjos; mas o mais importante, no meu entender, diz respeito às participações de grande qualidade de vários artistas. Os Connection conseguem o que muitos já tentaram: a união de gerações, a junção de estilos, sem preconceitos nem superstições. Este projecto faz uma soma de valores ímpares sem dar lugar à divisão nem a raízes quadradas.

Mais que tudo, as cantigas ficam na aurícula!

Paulo Bettencourt no seu melhor.

Mais informações acerca do projecto em:
Site Oficial: http://www.connection.com.pt
Facebook: http://www.facebook.com/connection.project
MySpace: http://www.myspace.com/connection.project
YouTube: http://www.youtube.com/user/ConnectionProject
Reverbnation: http://www.reverbnation.com/connectionproject
iTunes Store: http://itunes.apple.com/pt/album/fragments/id464824736