“Summoned Hell”: o nome sonante deixa qualquer saboreador de metal com a curiosidade espicaçada, deixando no ar uma sensação de clichê. Não o cliché proveniente do francês, insinuante de “repetição”, mas o que se relaciona com o metal propriamente dito. O meu gosto neste género musical é muito afunilado, talvez até demasiado exigente. Nem tudo me apraz, e nem sempre consigo colocar por vocábulos os motivos pelos quais…
Os sete elementos originais conotaram-se no estilo de Melodic Black Metal, no primordial mês de Junho de 2004. Alguns ajustes e normais mudanças no line-up no período que antecedeu 2008, mudou esse label para Melodic Death Metal. O álbum que desejo partilhar convosco é o culminar desse primeiro trilho, tendo os trabalhos sido iniciados em 2010. “Prison of Madness” é uma prisão de loucura que nos apreende os sentidos – e a pena é prolongada!
E eis que o pano abre…. A candeia que alumeia na frente é “Heart of Dust”, e dá início às hostilidades. O coração de poeira transporta-nos impecavelmente para o oriente nos seus primeiros instantes. Ovação de pé para Stephan Kobiakin: os solos de teclado são sobrenaturais, perfeitos. Este músico tem já um grande percurso, mas adivinho um ainda maior pela frente! Também neste tema, embora também no restante disco, difícil é não nos apercebermos da duração dos screams de Hugo Almeida; fácil é perdermos o fôlego logo a seguir. A execução é exemplar, temos aqui um vocalista a respeitar!
As mentes doentias de “Sick Minds” abrem caminho com excelente trabalho de Pedro Costa nos timbales, e a “In Sorrow” transborda arrependimento, enquanto a “Dead Men Song” diz-nos o que se ouve, vindo do inferno. Poder-se-ia definir “Storms of Insanity” como uma genuína libertação da loucura, de uma forma suave e melódica – se é que se pode efectivamente definir. Os licks de guitarra são deliciosos!
“Summoned Hell”, o tema com o mesmo nome do projecto, projecta-nos numa dimensão alucinante, que me fez ouvir os primeiros quarenta e cinco segundos repetidas vezes até conseguir encaixar a espectacularidade da sonoridade abrasadora!!! Um autêntico inferno melodioso! Aos 3:21 descobri um autêntico manjar para stereo addicts, garanto que vale a pena ouvir várias vezes!!! Aos 4:01, recebemos uma sugestão muito educativa, embora pouco religiosa, e entramos numa roda viva de bateria e baixo. Muito simples, mas que nos abre caminho para uma crescente série de pequenos orgasmos harmónicos até ao final da música.
Na faixa número sete, “Farewell” sorve uma bateria bem “torneada”. Suspiros desconcertantes. Estonteantes cinco minutos e meio; mais uma vez falam em dívidas por pagar. Embora se tratem de outro tipo de dívidas, o pre-chorus está muito bem escrito: “and though sometimes a bound can brake, a new strong one forms and awakes, for your crimes you’ll pay so there you stand, bring the coins, pay the dead and meet me on the dammned land.” Mas ainda assim acreditam, no refrão: ”I believe in your soul, but it’s doomed to paradise”. Depois temos a clássica melodia “dos cisnes”, seguida de uma vertiginosa odisseia de solos e execuções mestrias, principalmente dos teclados, num ritmo que nos transmite vontade de saltar – e mais que isso, até! Um êxtase de ritmo, power e harmonia! Em seguida, “Dammed Place” representa uma das mensagens mais fortes deste álbum. Amaldiçoa os “falsos deuses” da sociedade moderna, “aqueles em que votamos e escolhemos para ditar as regras que depois nos corrompem”.
Os alucinantes 7 minutos iniciais de “Symphonic”, desvendam teclados incrivelmente rápidos e sincronizados com os solos de guitarra e com a “marcação cerrada” da viola baixo de Paulo Arruda. Outro tema que invoca vocábulos fortes, seguidores do “canto da sereia”, “reis” poderosos, falsos profetas e promessas, anarquia, escassez… Surpresa aos 2:20: uma dança hipnótica de ballet!, seguida por licks de guitarra reveladores. E quando pensávamos que o tema não tinha nada mais de novo para trazer, outro solo de guitarra nos espanta até ao fim. Já “Sin of Lies” é um discurso directo para alguém que abusa da mentira e do pecado: uma forma de fechar o trabalho com chave de ouro.
(+) A formação de Hugo Almeida (guitarras e voz), Ruben Ferreira (guitarra), Pedro Costa (bateria), Paulo Arruda (viola baixo) e Stephan Kobiakin (teclas), parece bem equilibrada e com muito para oferecer. O poder das letras enriquece o trabalho e aumenta o interesse do ouvinte que se identifique com os temas.
(-) Depois da obra gravada, há 3 coisas em que é necessário apostar: promoção, promoção e… promoção! Estes estilos musicais dentro das várias vertentes do metal que as nossas ilhas produzem precisam chegar além fronteiras, mas depois, quando isso acontece, ainda carecemos de feedback na origem! Caso isso se contrariasse, talvez se conseguisse levar a nossa música AINDA mais longe! – sim, porque temos qualidade para isso; passem palavra, que a música açoriana agradece!
Mas efectivamente sim, as cantiguinhas ficaram-me na aurícula!
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